Capitão do Exército lotado no gabinete da Presidência estimula golpe em lista de transmissão

Lotado no gabinete pessoal da Presidência da República, o capitão da ativa do Exército, Andriely Cirino, tem usado uma lista de transmissão no WhatsApp para veicular mensagens com conteúdos golpistas, negando o resultado das eleições presidenciais do segundo turno, além de conclamar manifestações antidemocráticas e levantar suspeitas — infundadas — contra as urnas eletrônicas.

A divulgação se dá a partir de uma lista de transmissão que o militar utilizava, antes das eleições, para encaminhar material de publicidade do governo aos órgãos oficiais. As mensagens me foram encaminhadas por uma pessoa que está na lista de transmissão de Cirino e, antes, recebia os conteúdos profissionais. Uma segunda fonte, sob sigilo, também confirmou que passou a receber mensagens golpistas do militar.

Os destinatários são servidores ligados ao alto escalão do Planalto e assessores de diferentes ministérios. A mudança no teor do conteúdo aconteceu a partir do dia 30, após confirmada a vitória de Lula nas eleições presidenciais. Daí em diante, Cirino passou a encaminhar mensagens diárias, com vídeos e fotos das manifestações golpistas pelo Brasil.

Um dos vídeos é do argentino Fernando Cerimedo, que usa informações falsas e distorcidas para apontar erros inexistentes nas eleições brasileiras. “Este link tem que chegar aos 4 cantos do Brasil”, comentou o militar ao enviar a postagem, além de arrematar dizendo que o vídeo traz “dados explícitos sobre as fraudes”.


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No instagram, capitão Cirino manifestou apoio a Bolsonaro tanto em 2018, quanto em 2022.

Foto: Reprodução

Bolsonaristas que repassaram este mesmo vídeo, como o deputado federal eleito por Minas Gerais, Nikolas Ferreira, e o ex-líder do governo Bolsonaro na Câmara, deputado Major Vitor Hugo, ambos do PL, tiveram suas contas suspensas no YouTube por decisão do TSE. O vídeo, no entanto, ainda segue ativo na plataforma, como revelamos nesta semana.

Das 19 mensagens que tive acesso, até esta sexta-feira, 11, em nenhuma delas o capitão assumiu explicitamente que apoia um golpe. Mas os conteúdos que encaminha estimulam esse tipo de prática — em um dos vídeos que repassou dá para ver uma faixa pedindo “intervenção federal já”.

Cirino divulgou ainda uma postagem em que falsamente afirma que o relatório das Forças Armadas sobre as urnas conta tudo o que diversos órgãos tentaram esconder — entre os citados, estão o Tribunal Superior Eleitoral, o Tribunal de Contas da União, a Ordem dos Advogados do Brasil e até a Organização dos Estados Americanos.

No dia 2 de novembro (feriado), às 7h30, Cirino mandou uma mensagem agradecendo “aos que estão aqui”, em referência aos bolsonaristas que fechavam pistas em Brasília naquele dia. Às 14h22, também do Dia de Finados, ele encaminhou três vídeos editados, com imagens aéreas e trilha sonora de filme de ação, mostrando manifestantes em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília, onde ele é originalmente lotado.

A atualização dessas mensagens de Cirino se deram praticamente em tempo real. Ele mesmo informou que os vídeos foram feitos às 14h20, dois minutos antes de compartilhá-los por lista de transmissão.

Ao contrário de Bolsonaro, que desde a derrota nas urnas se recolheu das redes sociais, Cirino reverberou a seus contatos mensagens idênticas às encontradas nas manifestações antidemocráticas, buscando frases de efeito como “se perdermos essa guerra, perderemos nossa liberdade”.

Cirino também compartilhou um trecho de um vídeo antigo de Olavo de Carvalho, morto em janeiro deste ano, em que pede a manifestantes para “não parar, não precipitar e não retroceder”. No mesmo corte, o ex-astrólogo diz que as Forças Armadas “certamente vão aderir ao povo”.

Alta remuneração

Andriely Cirino recebe um salário bruto de R$ 24,4 mil, sendo sendo R$ 3.411,03 do cargo de nomeação política e outros R$ 21.010,05 como militar da ativa. Os dados são do portal da Transparência.

Desde 2019 (início da gestão Bolsonaro), o militar ocupou diferentes cargos, entre a Secretaria de Comunicação da Presidência, Ministério de Comunicações até ir para o Gabinete de Segurança Institucional, ligado à Presidência. Foi dele, em maio de 2020, a gravação da famosa reunião ministerial, que culminou com o pedido de demissão de Sergio Moro do Ministério da Justiça, após acusar Bolsonaro de tentar interferir na superintendência da Polícia Federal.

Em seu perfil no Instagram, Cirino declarou voto em Bolsonaro, tanto na eleição de 2018, quanto na desse ano. Sua foto do WhatsApp, do número no qual faz os disparos das mensagens, é ele (fardado) ao lado do presidente, fazendo um sinal de positivo. Cirino também participou dos atos antidemocráticos na Avenida Paulista, no dia 7 de setembro de 2021 — é vedado por lei a presença de militares da ativa em manifestações políticas.

A justificativa é que ele estaria a trabalho, tanto que recebeu até uma diária de R$ 193,19, além do custeio da passagem aérea, por essa atividade, à época como assessor do Ministério das Comunicações.

No início da tarde desta sexta-feira liguei para o capitão Cirino. Ele disse que seu telefone é “particular” e que “não iria se responder” aos questionamentos. “Você me acusou de estar enviando fake news, coisa contra a Constituição, coisa que eu nunca fiz. Você me fez perguntas e eu te ignorei”, respondeu, ríspido.

Questionei se ele havia enviado aquelas mensagens e se a iniciativa tinha partido dele, ou se era uma ordem de trabalho do Gabinete da Presidência. Ele não respondeu nenhuma dessas perguntas. Com o tom de voz elevado, pediu para não ser mais procurado, disse que não tinha “nada a esconder” e desligou o telefone.

O Gabinete da Presidência não respondeu aos questionamentos sobre o disparo das mensagens. Também perguntei a eles se teriam dado uma orientação institucional ao capitão capitão Andriely Cirino, mas não houve retorno do e-mail enviado.

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