Documentos inéditos indicam que Crematório da Vila Alpina foi planejado para ocultar cadáveres da ditadura

A ocultação de cadáveres foi apenas um entre tantos crimes cometidos durante a ditadura militar. A prática já havia sido abordada pela Comissão Nacional da Verdade e revelada pela CPI da Vala de Perus, de 1990, realizada após a descoberta de mais de mil ossadas no Cemitério Dom Bosco, em São Paulo. Um detalhe da confissão de um dos agentes da repressão, no entanto, passou quase despercebido pela comissão: o plano da ditadura para construir crematórios onde ocultar cadáveres.

Ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, agente do Serviço Nacional de Informação, o SNI, e membro do esquadrão da morte Le Cocq, Cláudio Guerra foi um dos principais depoentes na Comissão da Verdade sobre os crimes de estado ocorridos durante o regime militar. Hoje pastor evangélico, Guerra revelou em 2014 ser responsável por várias execuções e por incinerar corpos numa usina de açúcar em Campos dos Goytacazes, interior do estado do Rio, em meados dos anos 1970.

Em seu depoimento, ele afirmou que “até 1975, havia um acerto entre o Exército e o administrador do cemitério para que os corpos fossem enterrados clandestinamente” em Perus – onde, já em 1990, 1.049 ossadas foram encontradas em uma vala comum no cemitério local. Mas, segundo ele, devido à opinião pública, esse “esquema” deveria ser alterado. Surgiu, assim, o projeto de um crematório.

“O Cemitério de Perus foi criado para ser um crematório”, confirmou Adriano Diogo, ex-presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo. “O projeto só não foi adiante porque a empresa responsável pelos fornos se recusou a construí-los”. O projeto do crematório migrou, então, para a Vila Alpina. Poucos sabem, no entanto, que o Crematório Municipal Dr. Jayme Augusto Lopes foi viabilizado por um conluio entre funcionários municipais e defensores do regime militar. Um deles, que dá nome ao crematório, foi quem autorizou que as ossadas de Perus fossem cremadas ali, segundo depoimentos. O plano foi frustrado. Os documentos e depoimentos de trabalhadores da época, no entanto, mostram como funcionou o plano de ocultar cadáveres da ditadura em São Paulo, com apoio da estrutura da prefeitura.


VILA VELHA, ES, 15.03.2019 - Retrato de Cláudio Antonio Guerra, 79, ex-delegado do Dops (Departamento de Ordem Político Social) e hoje pastor evangélico da Assembleia de Deus (Foto: Gabriel Lordello/Folhapress)

Cláudio Antonio Guerra, 79, ex-delegado do Dops (Departamento de Ordem Político Social) e hoje pastor evangélico.

Foto: Gabriel Lordello/Folhapress

Queima de arquivos

Com o reconhecimento da cremação pelo Vaticano em 1963, a cidade de São Paulo aprovou quatro anos depois uma lei municipal para regulamentar a prática. Foi a deixa para que o então prefeito Faria Lima estabelecesse a licitação e compra dos fornos, inicialmente previstos para o Cemitério Municipal de Vila Nova Cachoeirinha. O prefeito também anunciou em 1968 um incinerador de ossos no cemitério de Vila Formosa.

Prover a cidade com um crematório era igualmente um intento do Cemit, o Departamento de Cemitérios de São Paulo. A sua instalação, conforme os jornais descreviam, seria fundamental para resolver o problema dos corpos dos indigentes, além de uma maneira viável para solucionar a falta de espaço na cidade para ampliações e inaugurações de necrópoles.

Foi o sucessor de Faria Lima, Paulo Maluf, que tirou o projeto do papel. Prefeito entre 1969 e 1971, ele iniciou a construção do Cemitério Municipal Dom Bosco, em Perus. Nomeado pelo governador Abreu Sodré após determinação do presidente Costa e Silva, Maluf foi o primeiro prefeito biônico de São Paulo e o primeiro a governar sob o AI-5. Um de seus primeiros atos foi criar, em maio de 1969, a CMI, comissão municipal de investigação sobre “corrupção ou subversão”, que atuou em mútuo entendimento com os órgãos de repressão.

Não por acaso, entre 1969 e 1970, foram fundadas a Operação Bandeirante, a Oban, entidade semiclandestina que seria oficializada logo depois como DOI-Codi, a Polícia Militar e a Rota, batalhão de elite da PM paulista. A possibilidade de ter disponível um incinerador para eliminar vestígios de corpos indesejados, especialmente num remoto cemitério destinado a indigentes, deve ter soado como música para os ouvidos dos agentes da repressão.

Conforme o depoimento de Fábio Pereira Bueno, diretor do Cemit de 1970 a 1974 indicado por Maluf, à CPI de Perus, a instalação de um crematório era necessária diante do volume crescente de corpos de indigentes. Segundo ele, eram quase 50 enterrados por dia – número contestado pela CPI, uma vez que, entre 1989 e 1990, quando a população do município era maior do que em 1970, a média desses sepultamentos era de oito por dia.

Na época, os vereadores realmente encontraram um plano geral do Cemitério Dom Bosco, elaborado em abril de 1969, um ano antes do início das obras, que previa a construção de um “crematório eventual”, conforme a expressão impressa no papel. A sua localização, na planta, estava defronte a um dos portões do cemitério.


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Bueno contou à CPI que participou do processo de licitação e aquisição dos fornos em 1968, enquanto era assistente técnico. Optou pela empresa inglesa Dowson & Mason, que forneceria quatro fornos a gás. Juntos, eles poderiam incinerar 96 cadáveres em 24 horas, mais que o dobro da demanda na década de 1960.

No decorrer de alguns meses, o gabinete da prefeitura providenciou projeto de construção de crematório, levantamento completo de topografia e cadastramento dos cemitérios da capital, estudos sobre alteração das leis de exumação e de cremação e, por fim, criou a lei 7420, que reorganizava o Serviço Funerário Municipal, alterando seu Conselho Diretor e orçamento.

Entretanto, a CPI descobriu uma carta de maio de 1969 da empresa fornecedora dos fornos que questionava o projeto do crematório. O diretor da Dowson & Mason apontava discrepância entre entendimentos e sugeria a visita de um técnico à Inglaterra.


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Parece não haver o Hall de Cerimônias nesse projeto e também muitas coisas que, francamente, não entendemos, mesmo considerando estarmos associados e trabalhando há 15 anos em projetos de crematórios em todo o mundo.

Estamos particularmente preocupados com a sala de crematórios descrita em seus desenhos.

Gostaríamos de saber qual o motivo de ter duas enormes portas vai-e-vem nas posições assinaladas A e B, porque na maioria dos crematórios a sala propriamente dita onde as cremações são realizadas é mantida algo discreta (…).

Havia algo muito suspeito e inadequado no projeto da prefeitura. Um novo estudo de arquitetura foi solicitado, mas, antes mesmo de propor alterações, houve a confirmação pelo departamento jurídico de que a cremação não poderia ser aplicada sem o consentimento da família. O plano de incineração em larga escala foi abandonado – ao menos em Perus. Reajustado, o projeto também não foi adotado em Cachoeirinha.

Após mais de um ano sem notícias sobre o crematório, na véspera do Natal de 1970, foi anunciada a mudança de endereço para Vila Alpina: “Para nós, não importa muito o local de instalação. Importa, sim, que seja instalado”, declarou Fábio Pereira Bueno à imprensa na época. Detalhe: havia a promessa da prefeitura para se instalar gás no bairro, o que facilitaria o uso dos fornos. Em janeiro, uma nota dizia que, inicialmente, seriam cremados apenas indigentes e restos hospitalares. A partir daí, o termo “indigente” seria recorrente nas pautas sobre cremação.

Praticamente sem menção nos jornais, os cemitérios de Vila Alpina e Perus foram inaugurados em fevereiro e março de 1971, respectivamente. Maluf, ao final de seu governo, autorizou a concorrência pública para a construção do prédio do crematório. A obra, a cargo da Engeral S/A, empresa que tinha em seu quadro de gerências um ex-estudante da Escola Superior de Guerra, deveria ficar pronta em 1972.

Seis meses após a abertura dos cemitérios, foi aprovada uma alteração da lei de exumação que permitia maior rotatividade nos terrenos, reduzindo de cinco para três anos a permanência do corpo no sepulcro.


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A descoberta da Vala dos Perus, em 1990.

Foto: Marcelo Vigneron

O ossário clandestino da ditadura

O Cemitério Dom Bosco foi inaugurado em 2 de março de 1971 na remota Estrada do Pinheirinho, em Perus, distante 32 quilômetros da Praça da Sé, no extremo noroeste de São Paulo. Antiga reivindicação dos moradores, o cemitério recebeu endereço diferente do proposto pela associação do bairro, que queria sua instalação no centro de Perus.

Antes que as primeiras famílias pudessem fazer uso das sepulturas, o local foi destinado preferencialmente a mortos que chegassem ao IML sem identificação ou que não fossem reclamados por parentes em até 72 horas. Como o IML é dedicado a necropsias de mortes violentas e não naturais, tais medidas tinham seu propósito: a vala escavada ilegalmente ali tornou-se o mais importante esconderijo de corpos da ditadura.

Conhecidas por funcionários da necrópole e por familiares de desaparecidos desde os anos 1970, a desova de corpos e a vala clandestina tornaram-se públicas em 1990, a partir das investigações do jornalista Caco Barcellos. No dia 4 de setembro daquele ano, 1.049 sacos plásticos com esqueletos foram desenterrados de um buraco comprido e estreito.

No dia seguinte à abertura da vala, a então prefeita Luiza Erundina instaurou a Comissão Parlamentar de Inquérito: Desaparecidos Políticos, mais conhecida como CPI de Perus. Foi a primeira comissão legislativa a investigar os crimes da ditadura, servindo de base para comissões posteriores.

Conforme o jornalista Camilo Vannuchi detalha em seu livro Vala de Perus: Uma Biografia, a descoberta de Caco surgiu a partir de pesquisas para seu livro Rota 66: A História da Polícia Que Mata. A pista despontou entre milhares de papéis envelhecidos, sujos de sangue, numa sala no IML de São Paulo. Médicos legistas – entre eles, Harry Shibata, notório pelo laudo de falso suicídio de Vladimir Herzog – marcavam alguns laudos com uma letra “T”, em vermelho, uma designação para “terrorista”, como a ditadura e imprensa classificavam militantes políticos. A marca aparecia nas necropsias feitas entre 1971 e 1974.

Em vez dos nomes originais, os documentos continham codinomes dos militantes – o que dificultava sua identificação. Em vez da descrição de lesões físicas visíveis (feito mutilações ou sinais de tortura), os atestados de óbito relatavam atropelamentos, suicídios ou tiroteios. Os corpos, que, pela lei, deveriam permanecer 72 horas em câmara frigorífica, eram dispensados em menos de 24 horas. Os mortos pela polícia, os indigentes e os “terroristas” tinham um destino comum: o Cemitério Dom Bosco, em Perus.

Quando os corpos chegavam em camburões ao cemitério, por vezes escoltados pela polícia, em caixões de madeira bruta, alguns sem tampa, os coveiros perguntavam: “tem algum especial aí?”. Esses cadáveres eram enterrados nas quadras 1 e 2, onde também eram sepultados os indigentes.

Administrador do Dom Bosco a partir de 1977, Antônio Eustáquio, mais conhecido como Toninho, só descobriu o significado do “T” nos atestados em 1990. Elemento-chave na elucidação dos crimes da ditadura até então encobertos, Toninho havia sido admitido por Jayme Augusto Lopes, superintendente do Serviço Funerário de São Paulo, para “cuidar dos indigentes”, diz ele.

Ao analisar documentos do cemitério, Toninho percebeu que certos dados não constavam nos livros de registro. Segundo o padrão, após três anos sem que nenhuma família reclamasse as ossadas, os restos mortais eram exumados e então enterrados novamente num patamar abaixo para dar lugar a novos corpos. Todavia, em 1975, houve uma exumação em massa de ossadas, documentada, mas sem registro legal do novo paradeiro. “Pelo meu levantamento, mais de 1.500 ossadas desapareceram dos registros”, ele me disse.

‘Mais de 1.500 ossadas desapareceram dos registros’.

Intrigado, ele passou a questionar os funcionários, até descobrir que o operador de retroescavadeira abrira uma vala rente a um barranco. Numa noite, munido de uma sonda, Toninho vasculhou o terreno indicado até encontrar a tal vala. Receoso pelo momento político, ele guardou a informação para si – exceto quando eventualmente era procurado por parentes de desaparecidos.

Graças ao contato de Caco Barcellos com Toninho Eustáquio, a terra começou a ser revolvida há 32 anos. No cruzamento de dados surgiram os nomes (ou codinomes) localizados por Caco. Motivado pelo jornalista, Toninho decidiu pedir autorização à superintendência do Serviço Funerário para escavar o gramado no fundo do terreno, com o pretexto de construir um ossário. Com a vala aberta, mediante pressão de comissão de familiares, os esqueletos da ditadura tornaram-se manchetes.

Instalada a CPI, foram ouvidos, entre outros, funcionários do cemitério e do sistema funerário, policiais e militares, parentes de desaparecidos, Fábio Pereira Bueno, os legistas Harry Shibata e Isaac Abramovitch, o diretor da Polícia Federal Romeu Tuma, ex-delegado e diretor do DOPS, os ex-prefeitos Paulo Maluf e Miguel Colasuonno e o ex-governador Abreu Sodré.

A investigação constatou que as ossadas eram de pessoas sepultadas como indigentes e que, entre elas, havia vítimas do Esquadrão da Morte e dissidentes políticos – até 1990, sabia-se que 19 haviam sido enterrados em Perus. As pesquisas consideraram que os corpos foram exumados em 1975 e, após meses na sala de velório, foram enterrados sem registro na vala comum no ano seguinte – algo injustificável, além de ilegal, uma vez que na época havia muito espaço na necrópole para que ocorresse uma exumação em massa.

A Comissão Parlamentar apurou que 1.564 ossadas foram exumadas. Peritos da Unicamp deduziram que a diferença desse número para as 1.049 localizadas seria a presença de aproximadamente 500 crianças vítimas da acobertada epidemia de meningite que assolou São Paulo na década de 1970, cujas ossadas não resistiram ao tempo. Anos depois, surgiria a hipótese, ainda não comprovada, de existir uma segunda vala no cemitério que teria recebido esses corpos.


ORG XMIT: 262101_0.tif O presidente Arthur da Costa e Silva. (Sem local e data. Foto: Acervo UH/Folhapress)

Arthur da Costa e Silva.

Foto: Acervo UH/Folhapress

A indigência como pretexto

A Lei Municipal 7017, de 1967, havia determinado que poderiam ser cremados os cadáveres de pessoas que em vida tenham assinado documento em cartório permitindo a cremação ou, em casos especiais, quando as famílias dos mortos permitirem, mesmo nos casos de exumação. Em casos de mortes violentas, a cremação só poderia acontecer com autorização das autoridades policiais. A lei determinou que a prefeitura também poderia autorizar a cremação de cadáveres de indigentes e de desconhecidos, desde que respeitadas as regras previstas na lei.

Mesmo com o fim da ditadura, a lei nunca foi revogada, a despeito da Constituição de 1988 definir que pertence à família o corpo do ente falecido. Na época, a imprensa noticiou que os fornos teriam como objetivo a cremação dos indigentes.

Uma grande reportagem publicada no Estado de S. Paulo em agosto de 1971 anunciou o projeto de um cemitério vertical, reformas em necrópoles e a instalação do moderno crematório na Vila Alpina, com jardins, sala cerimonial circular e elevador para o ataúde. “Após o crematório ficar em quarentena na administração passada, o governo de Figueiredo Ferraz se apressa em construí-lo, pois 45 indigentes por dia são enterrados nos cemitérios de Vila Alpina e Perus, o que já justificaria sua instalação. São corpos que aparecem à margem de estradas, debaixo de viadutos ou simplesmente jogados na rua, sem identificação”, diz a reportagem. “Os engenheiros da Prefeitura encarregados da execução do projeto evitam expor pormenores do funcionamento, temerosos que ‘possam chocar a opinião pública’, mas asseguram que o cerimonial no subsolo será prático, em ritmo industrial”.

Meses depois, o diretor do Cemit revelou que a lei que reduzia o prazo de sepultamento para três anos em valas comuns era suficiente para resolver o problema de vagas nas necrópoles. Resolvida a questão de exumação, Bueno, pessoalmente, tentou buscar subsídios para que a lei municipal fosse adaptada a permitir a construção de um crematório exclusivo para indigentes. Enquanto a autorização para cremação devia ser dada pelo IML ou Secretaria de Saúde, havia, entre seus planos, o projeto de câmaras de refrigeração para acondicionar até 60 corpos.

Engenheiro civil, ele viajou em 1972 pela Argentina e Uruguai (nações envolvidas na Operação Condor, a aliança militar do Cone Sul) para pesquisar os fornos ali utilizados e sua legislação. No mesmo ano, outro engenheiro, Paulo Adiron Ribeiro, viajou para a Inglaterra – o mesmo destino, dois anos depois, de Jayme Augusto Lopes, superintendente do Serviço Funerário Municipal e advogado, a fim de examinar o funcionamento de crematórios e as possíveis adaptações a serem feitas em São Paulo.

Responsável pela instalação do sistema, Ribeiro comunicou ao jornal O Globo em novembro de 1973: “quando for inaugurado o forno crematório, a prefeitura terá que usar cadáveres de indigentes, porque, como ocorreu em outros países, haverá uma repulsa inicial da população à cremação. Mas isso desaparecerá com o tempo”.

Em 1974, todavia, o novo prefeito de São Paulo, Miguel Colasuonno, determinou que os administradores de cemitérios fossem substituídos por pessoas de sua confiança, o que gerou a desautorização do diretor do Cemit e o seu pedido de demissão. Outro fator também poderia ter colaborado para a saída de Bueno: a desaprovação pelo departamento jurídico, mesmo após análise da legislação argentina, da prática de cremação de indigentes.

O novo diretor, Sérgio Barbour, promoveu vistoria nos cemitérios, pesquisa de opinião dos moradores e testes nos fornos, enquanto o secretário dos Serviços Municipais, o sanitarista Werner Zulauf declarou: “ao contrário do que anunciava o antigo diretor do Cemit, Fábio Pereira Bueno, que dizia que o forno iria aliviar os cemitérios, devido ao alto padrão dos sistemas, indigentes, corpos não reclamados e restos mortais não serão cremados”.

Naquele ano, o regime de repressão deixou de anotar a “T” nos laudos do IML, guerrilhas de esquerda foram desmanteladas e a suposta distensão política iniciou-se com o governo Geisel.

Após cinco anos da chegada dos dois fornos em Santos, o primeiro crematório do país foi finalmente inaugurado em 12 de agosto de 1974 na Vila Alpina, ao lado do cemitério São Pedro. Era, supostamente, destinado a classes mais abastadas. Em Perus, no entanto, havia muitos esqueletos de indigentes – e militantes assassinados pelo regime – aguardando por um destino final.

‘A vala clandestina foi o crematório que não existiu’.

Exumadas em 1975, exatamente três anos após a aprovação da lei de exumação, as ossadas permaneceram ensacadas por meses no velório do cemitério. A informação que circulava entre os servidores era que seriam cremadas em Vila Alpina, ficando à espera dessa providência. Depoimentos à Comissão Parlamentar indicavam o conhecimento da exumação e seu fim: “Dr. Jayme”, o superintendente Jayme Augusto Lopes, teria autorizado a cremação, conforme relatou o serviçal do cemitério, João Aparecido André, enquanto o fiscal de cemitérios do SFM, Carlos Eduardo Giosa, disse que o superintendente consentira a abertura de um ossário subterrâneo.

Planejados para incineração, os despojos tiveram outro destino. “Pensamos que as dificuldades de transportar as mais de mil ossadas para o crematório em caminhões, descarregar sacos, sem condições de explicar a fumaça contínua, levaram à abertura da vala”, explica a relatora da CPI, a ex-vereadora Tereza Lajolo. “A vala clandestina foi o crematório que não existiu”, conclui. “Não investigamos sobre os fornos, porque o objetivo era explicar a vala”, diz.

Uma das poucas notas informativas dadas após a inauguração, datada de 1976, ano de abertura da vala, observou que o prefeito Olavo Setúbal considerou o crematório deficitário por cremar menos de dois corpos, em média, por dia. Em 1988, o espaço foi oficialmente nomeado como Crematório Municipal Dr. Jayme Augusto Lopes, em homenagem feita ao superintendente do SFM falecido em 1983. Atualmente, dispondo de seis fornos, ainda é o único crematório de São Paulo.

De acordo com Cláudio Guerra, o crematório chegou a receber corpos oriundos de Perus (por “erro operacional”, segundo o próprio) e de outros locais. Ninguém sabe quem são – e nunca saberá. Segundo Guerra – que confessou, ele mesmo, ter sugerido o uso da usina de açúcar para a carbonização de corpos vindos da Casa da Morte, em Petrópolis – a ideia de utilizar a incineração para ocultar corpos havia partido do SNI, o Serviço Nacional de Informação.


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O Crematório Municipal Dr. Jayme Augusto Lopes foi viabilizado por um conluio entre funcionários municipais e defensores do regime militar.

Foto: Wikimedia Commons

Esqueletos no armário

A Comissão Parlamentar e a Comissão Nacional da Verdade consideraram que o sistema de desaparecimento forçado e ocultação de vítimas foi possível graças ao conluio entre órgãos de repressão, sistema funerário e poder público. Enquanto o monitoramento do sistema era feito pelo SNI, o órgão que promovia a principal conexão entre as várias esferas era o IML, entidade estadual atrelada à Secretaria de Segurança Pública.

A sugestão por sepultamentos em Perus teria partido do IML, além do Serviço Funerário. Fábio Pereira Bueno declarou que foi procurado por Harry Shibata, diretor do instituto, para acertar o uso do Dom Bosco para sepultar indigentes, em vez dos tradicionais cemitérios de Vila Formosa e Lajeado, por estar mais próximo ao prédio onde eram feitas as necropsias.

Por sua vez, o delegado da divisão de Ordem Política do DOPS, Alcides Cintra Bueno, orientava os procedimentos ao IML e ao Serviç Funerário. O uso do “T” seria uma ordem determinada por ele. Segundo o legista Jair Romeu, Cintra teria telefonado diretamente a Jayme Lopes para requisitar um caixão para o ativista Carlos Marighella, na ocasião de sua morte. A inter-relação se estendia inclusive ao âmbito familiar: o filho do diretor do Cemit, Fábio Pereira Bueno Filho, era investigador do DOPS, atuando sob as ordens de Tuma, enquanto Harry Shibata Júnior e Romeu Tuma Júnior trabalhavam no Serviço Funerário .

O acirramento do autoritarismo militar, a partir do AI-5, ocorreu simultaneamente a um período de grandes mudanças no sistema funerário. Entre 1969 e 1970, foram criados o AI-14 (ato que restabelecia a pena de morte no país), Oban, DOI-Codi – chefiado pelo comandante Brilhante Ustra entre 1970 e 1974 –, Polícia Militar e Rota. O DOPS, com Sérgio Fleury à frente, passou a ser subordinado ao 2º Exército. Em 1974, surgiu o chamado Braço Clandestino da Repressão, que modificou o aparelho repressor na direção de uma ação ainda mais furtiva.

No mesmo período, foram fundados três cemitérios municipais em São Paulo – Cachoeirinha, São Pedro e Dom Bosco – e quatro particulares, além do crematório municipal. O Cemitério da Vila Formosa, principal destino de descarte de corpos de indigentes antes de Perus, sofreu em 1975 uma reforma não autorizada, que acarretou na pulverização da quadra dos “terroristas”. O Cemitério do Lajeado, em Guaianases, na Zona Leste de São Paulo, por sua vez, foi alvo de sucessivos incêndios que ocasionaram queima de documentos e morte de um funcionário.

A CPI concluiu que há uma desorganização histórica no Serviço Funerário Municipal no tratamento dispensado às pessoas pobres, genericamente chamadas de indigentes. E que essa manipulação serviu ao ocultamento de corpos de vítimas da violência policial e de presos políticos – em São Paulo, foram sepultados como indigentes cerca de 47 vítimas da ditadura em apenas três cemitérios: Dom Bosco, Vila Formosa e Campo Grande. Por fim, que houve intenção de cremar os corpos de indigentes, entre os quais estavam os de presos políticos.

Em depoimento à CPI feito em sua mansão nos Jardins, em 1991, Paulo Maluf responsabilizou o prefeito Faria Lima pelo projeto de construção do cemitério Dom Bosco. Também negou conhecer Harry Shibata, diretor do IML durante seus três anos como prefeito, e Sérgio Fleury – apesar de ter ido a seu velório. Ele negou ainda ter determinado a construção de crematório em Perus. “Como cristão, jamais permitiria a cremação de indigentes. Sempre soube que os mortos têm de ser enterrados”, disse. Quanto às torturas no DOI-Codi, garantiu que tomou conhecimento delas somente após as mortes do jornalista Vladimir Herzog e do metalúrgico Manoel Fiel Filho, entre 1975 e 1976.

Porém, admitiu a concessão de um jazigo no Cemitério de Campo Grande, na Zona Sul, para a agente do DOPS Estela Borges Morato, morta em novembro de 1969. Na mesma ocasião também morreu o ex-deputado e dirigente da ALN Carlos Marighella – por sua vez, enterrado como indigente em Vila Formosa. Maluf justificou ter assinado a concessão sem ler, em meio a várias outras, trazidas por assessores para receber sua sanção.

Cabe lembrar que ele, como governador, cedeu uso de terreno para o DOI-Codi no final dos anos 1970. Em 1993, quando reassumiu a prefeitura da cidade, pelo voto, sucedendo Erundina, alguns de seus primeiros atos foram a extinção da comissão de acompanhamento de familiares de desaparecidos políticos e a exoneração de Antônio Eustáquio, administrador do Dom Bosco e responsável por revelar a vala de Perus. O gradativo abandono do trabalho de investigações sobre as ossadas foi outro passo. O descaso somente terminaria em 2014, quando a análise forense foi retomada pela Unifesp.

Ao desprezo do prefeito pelo assunto, acrescente-se a destruição proposital dos arquivos do IML, especialmente entre 1969 e 1974, e do DOPS. Os arquivos do último se tornaram públicos em 1992, mas muitos foram retirados por policiais enquanto estavam sob a guarda do então diretor da Polícia Federal Romeu Tuma.

Em 2009, o Ministério Público Federal, por meio da procuradora Eugênia Gonzaga, ex-presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, promoveu uma ação civil contra os ex-prefeitos Paulo Maluf e Miguel Colasuonno, Romeu Tuma, Harry Shibata e Fábio Pereira Bueno, além do Município e Estado de São Paulo e a União. A ação busca responsabilizar os réus por ocultação de cadáveres – os descendentes e representantes de Colasuonno, Tuma e Bueno respondem pelo processo. Em 2019, Eugênia Gonzaga foi exonerada por Bolsonaro da presidência da CEMDP.

As investigações sobre as violações cometidas pela ditadura foram retomadas com as diversas Comissões da Verdade. Dados apresentados pela Comissão Estadual Rubens Paiva mostram que quase 5 mil cadáveres entraram no cemitério Dom Bosco identificados como desconhecidos entre 1971 e 1980. O presidente da comissão, o ex-preso político e deputado Adriano Diogo, considerou vaga a afirmação de que corpos de militantes foram incinerados em Vila Alpina. Mas, frente aos dados levantados pela reportagem, passou a cogitar tal possibilidade. “Começo a crer que corpos possam ter sido levados para lá. Ouvíamos algumas conversas nesse sentido”, conta ele.

Diretor da divisão de cemitérios por menos de um ano, Sergio Barbour afirma que, na sua época, a indigência era atestada pelo SFM e o enterro, administrado pelo Cemit. Ele considerou absurda a ideia de seu antecessor de utilizar a indigência para justificar o uso do crematório e acha difícil provar que corpos foram levados para lá. “Quem faz isso não costuma deixar vestígios”, avalia.

O ex-delegado Cláudio Guerra negou-se a dar entrevista ao Intercept. Questionada por qual razão Vila Alpina se tornou o destino do crematório, a assessoria do Serviço Funerário justificou que os cemitérios de Vila Formosa e Cachoeirinha não comportariam prédio de tal dimensão. Contudo, os dois cemitérios são os maiores da cidade. Envolto em mistérios, o forno crematório original não possui fotos nos arquivos do Serviço Funerário Municipal por conta de um “incidente interno”. Estranhamente, o forno da época teve um fim insólito: foi descartado em 2006 como bem inservível – sucata.

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