Golpistas transmitiram lives por mais de quatro horas sem serem derrubados pelo YouTube ou Meta

Um relatório da ONG SumOfUs, que monitora big techs, afirma que as plataformas de redes sociais facilitaram a distribuição de conteúdo sobre os ataques dos terroristas em Brasília no último domingo — incluindo a incitação explícita à violência. Houve ainda, como de costume, monetização dessas publicações criminosas, permitindo que os donos das páginas – e as próprias plataformas – lucrarem com as postagens.

Os pesquisadores encontraram influenciadores golpistas que chegaram a transmitir os ataques e o vandalismo por horas – alcançando uma audiência de milhões de visualizações em apenas um dia. Outro, mostra o relatório, transmitiu os atos terroristas por cinco horas, chegando a 600 mil visualizações em um dia, se espalhando pelas plataformas da Meta – Facebook e Instagram – e também no Twitter, TikTok e Telegram. Tudo monetizado.

A ONG já havia alertado as plataformas sobre a profusão de conteúdos potencialmente danosos à democracia brasileira nos atos golpistas de 7 de setembro do ano passado, como reportou o Intercept. Na época, a diretora de campanha da ONG Flora Rebello sentenciou: “é como se estivéssemos revivendo o cenário criado em 6 de janeiro nos Estados Unidos”. “A Meta está ajudando ativamente a mobilizar um exército online no Brasil responsável pela disseminação de teorias conspiratórias sobre a integridade das eleições e que ameaça dar um golpe violento”, ela alertou. Foi exatamente o que aconteceu.

Desta vez, mostra o relatório, o Google e a Meta permitiram que extremistas transmitissem os atos violentos ao vivo, incitando que mais pessoas participassem dos ataques. Muitos deles seguiram pedindo golpe depois das publicações. Anúncios foram exibidos sem restrição. “O Google, assim como os influenciadores, lucrou com toda a confusão em Brasília”, diz o relatório.


Canal transmitiu ato terrorista por quatro horas ininterruptas.

Canal transmitiu ato terrorista por quatro horas ininterruptas.

Foto: Reprodução/YouTube

O canal Política sem Curva, com 77 mil seguidores, foi um dos que transmitiu os ataques por mais de quatro horas sem incômodo. No vídeo, o influenciador extremista Genival Fagundes – candidato derrotado a deputado federal pelo PL goiano em 2022 – afirmava que as pessoas “haviam perdido a paciência” e estavam “tomando o poder de volta”. “É vandalismo quando as pessoas retomam sua própria casa? Claro que não”, ele chegou a dizer.

A live foi retransmitida em seu Facebook. Na descrição, ele pedia doações e convidava os seguidores para outras redes sociais. O vídeo golpista também exibiu anúncios. Agora, o canal está suspenso no YouTube, mas sua página no Facebook segue no ar.


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Print mostra transmissão da invasão ao STF. Golpista posa com a foto da porta do gabinete de Alexandre de Moraes.

Foto: Reprodução

Outro canal, o VV8.TV, também exibiu as cenas explícitas de terrorismo sem problemas. A transmissão teve quase 1 milhão de visualizações antes de ser derrubada pelo Google. O vídeo também foi monetizado. O relatório cita ainda outros três canais que transmitiram a tentativa de golpe e foram remunerados por isso: Didi Red Pill, Andreia Luiza Matias e Jornal Bunker. Todos seguem no ar.

Os conteúdos golpistas de domingo só começaram a ser derrubados pelas plataformas depois da decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes que obrigou as empresas a removerem os conteúdos golpistas, com multa de R$ 100 mil em caso de descumprimento. Ainda é possível, no entanto, encontrar essas publicações que apoiam e incitam mais atos.

O potencial de viralização das redes fez com que alguns poucos posts conseguissem uma audiência massiva, espalhando o golpismo livremente. Só no Facebook, dois posts angariaram mais de 500 mil visualizações. No TikTok, outros quatro vídeos conseguiram 3 milhões. No Telegram, apenas três mensagens chegaram a 138 mil.

Na conclusão, a ONG pede que as autoridades brasileiras investiguem o papel das redes sociais nos ataques do último domingo, assim como o banimento dos perfis que postaram conteúdos incitando o golpe, além da extradição dos influenciadores de extrema-direita que fugiram para os EUA e continuam propagando livremente desinformação e conteúdo pró-golpe.

Ao Intercept, o Google afirmou que, assim que os ataques começaram, suas equipes “passaram a analisar e remover conteúdo contrário às nossas políticas, incluindo transmissões ao vivo, vídeos e comentários que apoiavam ou elogiavam os ataques e incitavam outras pessoas a cometer atos violentos”. “Nossos sistemas destacaram conteúdo de fontes confiáveis em nossa página inicial, na parte superior de resultados de pesquisa e em recomendações. Além disso, de acordo com nossas diretrizes de conteúdo adequado para publicidade sobre eventos sensíveis, começamos a impedir a veiculação de anúncios em conteúdo que incitava à violência”, disse a empresa por meio de sua assessoria. O Google afirma que encerrou mais de 2,5 mil canais e removeu mais de 10 mil vídeos relacionados às eleições, “a grande maioria com menos de 100 visualizações”.

Atualização – 12 de janeiro de 2023, 10h45
O texto foi atualizado para inclusão do posicionamento do Google, enviado após a publicação.

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