Levantamento inédito mostra como cidadãos comuns se transformam em robôs de Bolsonaro em grupos de WhatsApp

No Facebook de Salete, praticamente nenhuma postagem pública contém informações verdadeiras. Ela compartilha links de canais bolsonaristas no YouTube com mentiras sobre Lula, os ministros do Supremo Tribunal Federal e as eleições. Vez ou outra, aparece alguma oração ou receita.

Salete é uma cidadã comum do interior de São Paulo, mãe e dona de uma loja online de cosméticos a preços populares. Ela poderia ser apenas uma típica tia do zap, mas, desde 2021, postou sozinha mais de 10 mil mensagens em apenas três grupos bolsonaristas no WhatsApp. É a integrante mais assídua deles.

Esses e outros dados estão em um levantamento inédito feito pelo publicitário Renato Ribeiro, que é mestre em Comunicação, e monitora sistematicamente 25 grupos de WhatsApp bolsonaristas. As mais de 350 mil mensagens analisadas pelo pesquisador de janeiro de 2021 a julho de 2022 revelam que cidadãos comuns, iguais a Salete, funcionam como robôs vivos do bolsonarismo, compartilhando mensagens de forma orgânica. “Podemos dizer que essas pessoas são centrais de distribuição de conteúdo. Elas ajudam as informações desses grupos a chegarem mais longe”.

Segundo Ribeiro, os tios e tias do zap também são usados como cobaias para testar quais argumentos sobre assuntos diversos serão mais aceitos pelos apoiadores. “O que Bolsonaro fala foi experimentado antes nesses grupos. Eles funcionam como uma pesquisa qualitativa diária e constante”, afirmou.

A maioria dos grupos monitorados por Ribeiro foram criados por sistemas automáticos. “Sabemos disso porque os números de telefone são estrangeiros e não existem de fato”, disse o pesquisador. A lógica é quase sempre a mesma: o link para o grupo recém-criado é compartilhado nos que já existem. Depois que as pessoas entram e começam a interagir, é feito um chamado para que alguém assuma a moderação. Os moderadores são pessoas comuns, distantes da cúpula bolsonarista. A partir daí, tudo passa a funcionar de forma orgânica.

Um dos objetivos dos grupos criados de forma automatizada é monitorar as mensagens e testar reações a elas. “Isso é feito por meio de softwares muito bem estruturados e caros que mostram qual conteúdo gerou mais engajamento e se ele foi positivo ou negativo”, explicou Ribeiro.

Um dos assuntos que mais mobilizou os grupos monitorados por Ribeiro, em julho, foi o assassinato do petista Marcelo Arruda pelo policial penal bolsonarista Jorge Guaranho, em Foz do Iguaçu, Paraná. O crime gerou mais de 70 postagens entre os dias 10 e 15 de julho.

Segundo Ribeiro, o bolsonarismo viveu um dilema nesse caso. “Quando acontecem fatos potencialmente negativos para eles, a prática é não repercutir nos grupos e procurar mudar de assunto, se ele aparece espontaneamente. No caso de Foz do Iguaçu, porém, era preciso construir uma narrativa que desse argumentação para a militância”, ele me disse.

Assim, a primeira versão testada foi a de troca de tiros. Quatro mensagens com o mesmo conteúdo foram enviadas para um mesmo grupo no dia 10, entre 17h20 e 17h30, por um único número. Era o link para uma matéria com o vídeo da “troca de tiros entre lulista e bolsonarista”. O conteúdo também foi repetido nos dias seguintes.

Só que é mentira. Na verdade, Arruda comemorava seu aniversário num clube, numa festa decorada com bandeiras do PT e fotos do ex-presidente Lula. Guaranho foi até lá e agrediu verbalmente o aniversariante. Eles discutiram, e o policial penal prometeu voltar. E realmente voltou, armado. Antes de atirar contra Arruda, o assassino gritou: “Aqui é Bolsonaro, porra”.  Mesmo atingido, Arruda, que era guarda municipal e estava armado, reagiu e feriu o agressor – o que, segundo testemunhas, evitou uma tragédia ainda pior.

Nos grupos bolsonaristas, a troca de mensagens sobre o caso foi mais intensa no dia seguinte ao crime. A maioria delas buscava negar a motivação política do assassinato. Essa mesma tese foi convenientemente reforçada por um inquérito apressado da Polícia Civil do Paraná, concluído no dia 17.

Ativos 24h por dia

O pesquisador Renato Ribeiro identificou os principais tipos de mensagens que circulam nos grupos bolsonaristas e as separou por categorias. As mídias, que são os tipos mais recorrentes, incluem vídeos, áudios, imagens e figurinhas.

Os textos aparecem em segundo lugar. Alguns deles são bem longos: 4,5% das mensagens têm mais de 1.625 caracteres, o equivalente a cerca de uma página A4 num programa de edição de texto. Mas há textos de até 16 mil caracteres. “Não são profundos, mas bem didáticos, feitos com a intenção de dar argumentos para a militância”, resumiu Ribeiro.

Em terceiro lugar vêm os links para o YouTube. Segundo o pesquisador, a maioria dos vídeos são compartilhados assim, e não com os arquivos de vídeo para visualização no próprio WhatsApp. Isso ajuda a aumentar a audiência dos canais bolsonaristas no YouTube. “Para os arquivos de vídeo mesmo, eles reservam as fake news e acusações mais pesadas. Assim, se evitam problemas judiciais, pois não há como saber quem produziu o conteúdo”, ele explicou.

Entre as mais de 350 mil mensagens analisadas, cerca de 50 mil tinham links do YouTube que levavam a 1.048 canais diferentes. Mas Ribeiro calcula que a rede bolsonarista seja formada por mais de 5.500 canais na plataforma. “Folha Política, Os Pingos nos Is e Jovem Pan News têm maior influência nos grupos, mas eles e todos os outros servem a um propósito: ajudar a construir uma forte rede no YouTube, em que o próprio canal de Jair Bolsonaro é um dos principais beneficiados”.

É pelos grupos que são fornecidos argumentos para disputas nas redes, no dia-a-dia e nos almoços com a família.

Em último lugar, vêm os links para sites de páginas com informações falsas. O Jornal da Cidade Online e o Terra Brasil Notícias são os principais – dificilmente haverá links de canais sem ligações com o bolsonarismo em um grupo, mesmo que seja para criticar o conteúdo. “Faz parte do ecossistema de comunicação bolsonarista ter suas próprias fontes de notícias”, falou Ribeiro.

Os demais tipos de mensagens, divididas por redes sociais, têm baixa frequência. Aparentemente, não há muito interesse pelo Instagram. Menos ainda pelo Twitter e pelo TikTok – ao menos por enquanto.

Ribeiro também identificou a diferença entre os horários das postagens nos grupos de WhatsApp bolsonaristas em relação aos grupos de militantes de esquerda. Enquanto os primeiros são movimentados o dia todo, com picos no horário de almoço e entre 19h e 21h, grupos como Lulaverso e Time Lula, criados neste ano, funcionam em horário reduzido. Falta a eles a espontaneidade que existe nos grupos bolsonaristas, o que explica o fato de funcionarem geralmente em comerciais.

Segundo o pesquisador, o bolsonarismo é um movimento social e vai além do desejo de ganhar as eleições. Por isso, a comunicação segue esse modelo de rede, é mais horizontalizada e orgânica, diferente de uma comunicação política tradicional.

Assim, é pelos grupos e por um ecossistema de comunicação – que envolve os canais no YouTube e os sites de notícias falsas – que são fornecidos argumentos para a militância de extrema direita, preparando-a para disputas nas redes sociais, nas conversas do dia-a-dia e nos almoços de domingo com a família. Para cada problema ou dificuldade, o bolsonarismo oferece aos seus adeptos uma explicação convincente a ser passada adiante.

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