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Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images

Não é novidade que as Forças Armadas aparelharam o Ministério da Saúde com dezenas de militares colocados em postos-chave durante a pandemia. O general Pazuello transformou o ministério em quartel, e o resultado até aqui é um aceleramento vertiginoso do número de mortos. A intervenção militar na saúde pública brasileira contabiliza hoje 300 mil mortes, milhares delas evitáveis se a ciência fosse respeitada. O epidemiologista Pedro Hallal estima que 180 mil vidas poderiam ter sido poupadas não fosse a gestão vexatória do governo brasileiro.

A chegada de um médico cardiologista no lugar de um militar não muda esse cenário. Marcelo Queiroga já deixou claro que não fará nada que desagrade os seus chefes militares. A política do ministério continuará a mesma, ainda que haja um reparo insignificante aqui e outro ali. A intervenção militar no ministério continua de vento em popa.

Queiroga não é reconhecido por seus pares pelo brilhantismo acadêmico ou pela competência como médico, mas por ter um perfil exageradamente político. Além de ter sido um entusiasmado cabo eleitoral de Bolsonaro em 2018, o cardiologista se candidatou à presidência da Sociedade Brasileira de Cardiologia, a SBC, fazendo uma campanha digna de um bom bolsonarista. Chamava seu principal adversário de “petista” apenas por já ter atendido Lula em certa ocasião. Foi assim que virou presidente de uma importante entidade médica. É um político de mão-cheia que está fielmente alinhado aos comandantes do genocídio em curso.

Segundo um cardiologista consultado pela coluna, Queiroga era completamente desconhecido no meio médico até dois anos atrás, quando se tornou candidato à presidência da SBC. A fonte também afirmou que o novo ministro não tem ideias próprias sobre temas cardiológicos, nunca teve vínculos universitários significativos, mas sempre manteve boas relações políticas na Paraíba. É o médico medíocre e politicão que Bolsonaro procurava para assumir o ministério. Um fantoche perfeito para ser manipulado pelas Forças Armadas.

Antes de assumir o ministério, Queiroga já havia prestado serviços políticos ao projeto genocida. Não é fácil se equilibrar entre a politicagem de extrema direita e a defesa da ciência, mas um bom político sempre encontra uma saída. Em maio do ano passado, quando o Ministério da Saúde orientou a prescrição de cloroquina para o tratamento da covid-19, a SBC publicou nota dizendo não recomendar o uso do medicamento, mas sugeriu que os pacientes que quisessem adotar o tratamento deveriam fazer exames de eletrocardiograma.

Na prática, a nota legitima o uso do remédio, mas sem deixar as digitais no crime. Enquanto cientistas e o jornalismo se esforçavam para combater a desinformação sobre a cloroquina, o atual ministro da Saúde usava a entidade médica que presidia para conferir um ar de legitimidade para essa mentira bolsonarista. Pelas declarações dadas no passado, Queiroga não é exatamente um negacionista, mas, como o bom político que é, adequou seu perfil para poder pleitear uma vaga no governo negacionista.

Tudo isso ficou bastante claro com sua primeira coletiva depois de empossado. O ministro não apresentou um plano de emergência, não estabeleceu metas factíveis, não definiu prazos. Enrolou para responder as perguntas e tentou se manter em uma posição equidistante. Quando questionado sobre um protocolo do ministério que indica o uso de cloroquina contra a doença, escorregou como o bom político bolsonarista que é: “A minha opinião é que temos que olhar para frente e buscar o que existe de comprovado, e é isso que o Ministério da Saúde vai fazer”.

Afirmou também que pretende vacinar 1 milhão de pessoas por dia, mas não explicou como e quando isso será feito. Todo o discurso se baseou em platitudes e frases de efeito como: “É uma situação grave que precisa da atenção de todos”, “Vamos nos unir. É hora de gerar luz, e não calor”, “A função do médico é curar. Quando ele não pode curar, precisa aliviar. E quando não pode curar nem aliviar, precisa confortar”. Citou o papa, disse ser devoto de Santo Agostinho e demonstrou uma tranquilidade incompatível com o caos vivido no país. Parecia mais um coach espiritual do que um ministro com a dura missão de interromper uma tragédia sanitária em andamento.

‘Se Queiroga não recomenda diretamente o uso da cloroquina, o presidente segue fazendo campanha por ela’.

A sua primeira medida como ministro foi uma contribuição para o genocídio. Ele maquiou os números da tragédia, algo que Pazuello também fez no início da sua gestão. O ministério alterou os critérios de registro de óbitos para dificultar a contabilização de mortos por covid-19. Em São Paulo, por exemplo, o número de mortes caiu de 1021 para 281 após a aplicação dos novos critérios. Mais do que uma maquiagem, estamos diante de uma ocultação de provas do genocídio. O compromisso de Queiroga não é com o combate à pandemia, mas com a politicagem do seu chefe, que desde o início tenta dourar o desastre para não atrapalhar sua reeleição. O novo ministro é um soldado 100% fiel ao bolsonarismo e nada indica que isso irá mudar.

Se Queiroga não recomenda diretamente o uso da cloroquina, o presidente segue fazendo campanha por ela. É o jogo dúbio praticado desde sempre pelo governo. Nesta semana, Bolsonaro ligou para uma rádio para vociferar contra a demissão de uma médica de Camaquã, no interior do Rio Grande do Sul. Ela havia sido demitida por fazer nebulização com hidroxicloroquina em pacientes com covid-19, desrespeitando os protocolos definidos pelo hospital.

Bolsonaro reafirmou a bobagem de que os médicos devem ter liberdade para ministrar medicamentos sem comprovação científica e engrossou a teoria conspiratória que o boicote a esses medicamentos seria fruto de uma articulação em favor do negócio bilionário das vacinas. O resultado do procedimento defendido por Bolsonaro e aplicado pela médica é triste, porém está em conformidade com o projeto genocida: três pessoas morreram em Camaquã.

O ministro tem substituído funcionários militares em secretarias do ministério por médicos e especialistas, mas isso não significa que as Forças Armadas perderam força no comando da política sanitária. Queiroga já confirmou que seguirá a política determinada pelo ex-capitão. Quando os militares executaram a intervenção militar no Ministério da Saúde, o país contabilizava 15 mil mortos. Pazuello entregou o cargo nessa semana com 300 mil mortos nas costas e batendo recordes de óbitos por dia todos os dias. Qualquer médico que topasse assumir o ministério com as condições impostas pelo presidente e seus colegas militares já seria, a priori, um insano.

Mas Queiroga não é insano. É um bolsonarista raiz com aspirações políticas que sabe muito bem onde está pisando. Os militares encontraram um comandante ideal para o genocídio. Como bem disse o general Mourão há dois anos, “se o governo errar demais, a conta irá para as Forças Armadas”. Eu não chamaria o genocídio de erro, mas de um projeto dos militares, que são diretamente responsáveis por milhares de mortes.

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