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Em uma confraternização de Natal, em 2019, Ester dançou Vogue, mesmo sentada. Meses depois essas imagens ilustravam um cartaz que pedia justiça por ela.

Foto: João Bertholini

No Brasil, é comum batizar como “invisíveis” as pessoas que caminham, sem casa, sem saúde, sem emprego, por aí. Quando a nova peste e todas as suas cepas chegaram até nós em 2020, a palavra se multiplicou. Artigos, reportagens, editoriais: em tom grave, todos anunciavam que, graças ao vírus, estávamos finalmente conhecendo uma população até então escondida aos nossos olhos.

Mas tem um problema aí: ao atribuímos a “qualidade” de invisível às pessoas, passamos para elas toda a responsabilidade do próprio desaparecimento social e nos eximimos, imaculados, dessa questão. Cabe a pergunta: afinal, as pessoas são mesmo invisíveis ou nós escolhemos não vê-las?

Ou melhor: as pessoas são invisíveis ou são, reiteradamente, apagadas?

“Nessa mutilação de corpos, o Brasil fala sobre temas ainda atuais: fala sobre a miséria do pobre, da miséria da diferença e de outras mais. Convivemos lado a lado, por essas mutilações, com a expressão crua e seca da violência contra a condição humana”.

Quando comecei a escrever sobre Ester, Lorraine e Roberta, a mecânica dessa formidável e cruel geringonça de desaparecimento ficou ainda mais exposta para mim. Adianto: a primeira morreu de insuficiência renal aguda no Hospital das Clínicas de São Paulo. A segunda morreu queimada enquanto dormia nas ruas de São Bernardo dos Campos, em São Paulo. A terceira também foi queimada, no Recife, e passou duas semanas hospitalizada. Teve os dois braços amputados em decorrência dos ferimentos profundos. Roberta estava viva quando comecei esse texto. Morreu quando o finalizei, na sexta-feira, 9.

Todas tentaram, como eu e você, estar aqui, vivas ou íntegras, no meio das pestes.

Liguei para delegacias, hospitais, IML, assessorias de imprensa. Tentei famílias, companheiros, colegas. Procurei na internet. Da primeira, consegui a data de entrada no HC, dia 5 de setembro de 2020. Ficou 151 dias lá até morrer no dia 3 de fevereiro de 2021. Tinha 31 anos.

Da segunda, sei que morreu ano passado com 80% do corpo queimado e foi enterrada três dias antes de fazer 34 anos, em 11 de novembro. Da terceira, sei um pouco mais: tinha 33 anos e uma mãe que foi  ao hospital rezar pela filha e que sofreu vendo o seu estado. Torceu para que ela se recuperasse do ataque e da dependência química. A queria de volta, em casa, “direitinha”.

“Por meio dos jornais, nossa história é narrada nesses pedaços de corpos que trazem o cotidiano brasileiro sem metáfora e sem véu, apresentando a qualidade de vida que temos, a vida que nos é negada e os modos de viver que convivem com o medo, com a culpa e com as armas”.

Os trinta e poucos anos que estas pessoas transexuais ou travestis tinham ao morrerem sozinhas ou ao serem assassinadas não é mera coincidência: estão dentro do padrão de idade máxima vivido por esta população no Brasil, 35 anos (dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais, Antra). É a metade da expectativa de vida do restante da nação.

Como no país um número é quase nada – passamos de meio milhão de mortes por covid-19, mas há quem chore apenas por vidraça de banco –, pode-se ilustrar esse extermínio cotidiano de outra maneira. Tente lembrar quantas travestis e transexuais idosas ou mesmo de meia idade você conhece ou vê circular por aí. Tente encontrar travestis e transexuais saudáveis, com empregos não estigmatizados, nos mercados, shoppings, praias, feiras-livres, consultórios médicos, escritórios de engenharia. Sim, elas existem. Mas a maioria é apagada no meio da caminhada.

Antes de serem caladas, Lorraine e Ester compartilharam, juntas, alguns momentos de eternidade: eles estão registrados nas fotografias vistas aqui, realizadas durante uma confraternização de fim de ano, em 2019, na Casa Neon Cunha, em São Bernardo. Naquele dia, elas e outras travestis e transexuais viviam possibilidades raras (certamente não para você ou para mim): cantavam, conversavam, davam pinta, ouviam Madonna, comiam bolo e salgadinho. Estavam protegidas. Ester e Lorraine experimentavam o específico luxo de não saber que, em pouco tempo, uma peste viria matá-las. Não foi a covid-19, mas a geringonça de apagamento cujo maquinário é feito de bala, pedra, lâmina e fogo, a tal geringonça que as impediu de estar, como eu e você, vivas agora apesar das pestes.

“O fio da faca que esquarteja, ou o tiro certeiro no olhos, possui aliados, agentes sem rostos que preparam o solo para esses sinistros atos. Sem cara e sem personalidade, podem ser encontrados em discursos, textos, falas, modos de viver, modos de pensar que circulam entre famílias, jornalistas, prefeitos, artistas, padres, psicanalistas”.


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Lorraine na confraternização de final de ano na Casa Neon.

Foto: João Bertholini

Lorraine começou a ser apagada já aos 15 anos, quando foi sobreviver nas ruas da Grande ABC depois de sair do Rio Grande do Norte. Antes, fez faxina, alugou quarto, mas era pouca grana. Aos 18, foi presa por porte de drogas e só saiu da penitenciária aos 22. Passou quatro anos em um presídio masculino. Era mais uma dessas oportunidades ao contrário que a Justiça e o sistema prisional brasileiro, partes importantes da geringonça, oferecem a quem comete o “erro” de ser pobre, ser bicha, trans, mulher, travesti.

Novamente na rua, Lorraine contraiu HIV, tuberculose, pneumonia. O corpo ficou fragilíssimo. Conheceu Bruno, com quem conviveu, nas ruas, durante seis anos. Estava com ele quando foi novamente presa, em maio do ano passado. Debilitada, passou mal no presídio e foi levada ao Hospital das Clínicas de SP. Nos 151 dias em que esteve internada, não recebeu visitas – segundo o HC, por conta da pandemia. Morreu dia 3 de fevereiro de 2021, mas seu corpo só foi encaminhado para o IML no dia 12. De lá, só saiu no dia 19: estavam à espera de algum familiar que viesse reclamá-la, o que não aconteceu. Da morte até o sepultamento, foram 17 dias de corpo presente e solitário em um país que a chamou de invisível até conseguir dar conta do desejo de apagá-la.

“Destituídos de aparente crueldade, tais aliados amolam a faca e enfraquecem a vítima, reduzindo-a a pobre coitado, cúmplice do ato, carente de cuidado, fraco e estranho a nós, estranho a uma condição humana plenamente viva”.


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Ester dançando ao som de Madonna na Casa Neon, em São Bernardo.

Foto: João Bertholini

De Ester, sabe-se menos. Já vivia nas ruas quando passou a ser acompanhada pela casa Neon Cunha. Tinha começado a usar brincos, batom, quando entendeu que aqueles acessórios entendidos como “femininos” conseguiam expô-la ainda mais. Para se proteger, desistiu de adotá-los. Quando foi para a confraternização de Natal, vivia essa espécie de auto-apagamento que também servia de proteção.

Na festa, Ester usava um boá vinho e estava sentada conversando com outras pessoas. Quando começou a tocar Vogue, de Madonna, uma pequena comoção tomou conta do espaço: mesmo ali, sentada, Ester fechou os olhos e começou a dançar, a fazer as poses que a música sugere. João Bertholini, fotógrafo, estava presente. Ele conta:

“Fui me aproximando devagar, quase pedindo um consentimento silencioso. Ester percebeu. Na hora que eu fui tirar a foto, ela posou para mim. Lembro de falar que ela podia continuar dançando, que não se preocupasse, e segui fotografando. Voltei e sentei antes de a música acabar. Depois fui até ela para mostrar as imagens, ela gostou, disse que parecia um filme. Falei que gostava especialmente de uma e que ela estava linda.” Ester ficou tímida com o elogio.

Onze meses depois, após o fogo, era justamente essa imagem que ilustrava um cartaz no qual se lia “Justiça por Ester.


“Os amoladores de facas, à semelhança dos cortadores de membros, fragmentam a violência da cotidianidade, remetendo-a a particularidades, a casos individuais”.


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Roberta morreu na última sexta-feira, 9 de julho, após ser queimada por um adolescente.

Reprodução: Caia Maria Coelho/Jornalistas Livres

Chego então a Roberta, cujo sobrenome era Nascimento. Foi atacada na noite de 24 de junho, enquanto dormia no Cais de Santa Rita, zona central de Recife. Um adolescente ateou fogo no corpo da travesti, que há anos tentava se recuperar da dependência química: passou por períodos de internamento nas casas de projetos como o Atitude, do governo de Pernambuco. Nesses tempos de cuidado, preferia às vezes se manter à parte das atividades, mas ficava por perto, observando. Saía das casas de acolhimento, depois voltava. Foi justamente em um desses afastamentos que ela foi atacada. Segundo o comunicado do Hospital da Restauração, onde Roberta ficou internada, ela apresentou insuficiência renal e respiratória na manhã da última sexta-feira, quando morreu.

Roberta está entre as oito pessoas travestis e transexuais que, em menos de um mês, foram mortas ou atacadas violentamente em Pernambuco. No Brasil, o estado é um dos que mais possui mecanismos de proteção para pessoas LGBTQIA+. Mas isso ainda não implica, como se vê, na proteção mais efetiva de suas vidas. Crismilly Pérola, Fabiana Lucas, Kalyndra Nogueira da Hora, todas também assassinadas em menos de um mês, fazem parte do que Caia Coelho, que integra a diretoria da Nova Associação de Travestis e Transexuais de Pernambuco (Natrape), chama de transfeminicídio.

(…) “amoladores de facas não pertencem a um passado banido pela razão e pela modernidade, pelo contrário, foram seus porta-vozes, os fiéis escudeiros da construção de um Brasil culto, saudável e moderno”.

Não há como não pensar que esses apagamentos mais recentes aconteceram justamente a partir do mês em que se comemora o orgulho LGBTQIA+, quando centenas de empresas e milhões de pessoas juntam-se ao tema da representatividade (muitas vezes, uma armadilha). “O discurso de invisibilidade me preocupa muito, porque as políticas de visibilidade sempre ocorrem de forma paradoxal. De um lado, todo mundo vê as travestis, há décadas. Nas páginas policiais, por exemplo, nossas mortes e encarceramentos estavam sempre presentes. Mas estas mortes e encarceramentos sempre apareciam de modo despolitizado, sem uma análise do panorama geral no qual elas estavam inseridas e sempre de forma individualizante. E aí, mais recentemente, tem ocorrido um fenômeno curioso na publicidade, que é contratar mulheres trans e sempre demarcar esse lugar da mulher trans, e não travesti, principalmente nos meses de janeiro e junho, meses da visibilidade. Eu considero que ainda é cedo para avaliar a implicação disso para a sobrevivência e a boa vida das travestis, mas me parece no mínimo curioso que isso não implique em um engajamento concreto nas ações e mobilizações dos movimentos sociais”, diz Caia.

De fato, a maior presença de pessoas não cisgêneras nos espaços midiáticos não foi acompanhada pela diminuição de ataques e mortes desta população: o Trans Murder Monitoring indica que 350 pessoas trans foram assassinadas entre 1º de outubro de 2019 e 30 de setembro de 2020. Na primeira posição, com 152 casos reportados, está o Brasil. Depois, vem México (57 homicídios), Estados Unidos (28), Colômbia (21) e Argentina (12). Outro estudo, o “Dossiê: Assassinatos e Violência Contra Travestis e Transexuais Brasileiras” em 2020, produzido pela Antra e pelo Instituto Brasileiro Trans de Educação, IBTE, indica que, em 2020, foram 175 assassinatos de pessoas trans. Foi o segundo maior número de toda a série histórica no país: em 2017, foram registrados 179 assassinatos.

“O que os amoladores de faca têm em comum é a presença camuflada do ato genocida. São genocidas, porque retiram da vida o sentimento de experimentação e de criação coletiva. Retiram do ato de viver o caráter pleno de luta política e o da afirmação de modos singulares de existir”.

Quase todas elas foram assassinadas muito jovens (ou ainda crianças, como é o caso de Keron Ravach, apenas 13 anos, morta em Camocim, no Ceará). Keron, Crismilly, Fabiana, Kalyndra, Lorraine, Ester e Roberta não eram invisíveis e gostavam, como eu e você, de estar aqui, nítidas e acordando para outro dia, outra rodada, outra possibilidade. Foram apagadas, e você não as verá nos mercados, shoppings, praias, feiras-livres, consultórios médicos, escritórios de engenharia. Não as verá na festa, dançando Vogue, dando pinta, comendo bolo e salgadinho. Keron, Crismilly, Fabiana, Kalyndra, Lorraine, Ester e Roberta não ouvirão mais um elogio.

Quando comecei esse texto, queria falar da possibilidade da felicidade entre uma população extremamente estigmatizada. Queria tentar ultrapassar os relatos de sofrimento. Queria, como João fez em suas fotos, congelar momentos de beleza, de carinho, de comunhão, entre travestis e transexuais que não são e nunca foram menos humanas do que eu e você. Eu queria falar justamente da dimensão eterna de um elogio, uma frase dita por Neon Cunha e que sempre vai me acompanhar. Infelizmente, finalizando a escrita no dia da morte de Roberta, percebi que fui vencida pela geringonça formidável. Ela é feita de bala, pedra, lâmina e fogo.

É também formada por milhões de amoladores de faca.


As fotos de Lorraine e Ester vistas aqui fazem parte do projeto Afetividades Ordinárias, realizado por João Bertholini e com curadoria da publicitária e ativista Neon Cunha, cujo nome batiza a casa de apoio e acolhimento a travestis e transexuais em situação de rua. Tive a oportunidade de conversar com ele e com ela na abertura da exposição.

É possível contribuir com a Casa Neon Cunha (informações nas redes sociais da entidade) e com a Natrape, que está doando cestas básicas para trans/travestis em situação de vulnerabilidade alimentar. Contribuições pelo PIX [email protected]. Em Recife, há também o trabalho pioneiro do GTP +, que há 20 anos atua com a população LGBTQIA + e passa por uma delicada situação financeira.

Agradecimentos a Paulo Araújo, fundador e presidente da Casa Neon Cunha, que contribuiu fundamentalmente com esse texto.

Trechos trazidos do texto “A atriz, o padre e o psicanalista – os amoladores de facas”, de Luis Antonio Baptista.

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