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Flávio Bolsonaro disse que CPI é irresponsável porque causa aglomeração.

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O desastre no combate à pandemia no Brasil virou assunto do Parlamento Europeu. Uma resolução, aprovada pela maioria absoluta dos deputados, classifica Bolsonaro como  “criminoso” e “um risco à humanidade”. Os deputados europeus recomendam que autoridades brasileiras sejam investigadas e levadas à justiça. A decisão não é uma obrigação legal, mas bastante simbólica do fracasso do Brasil de Bolsonaro, que virou o maior pária do mundo. Nesta semana, marcada pelas 400 mil mortes, o Senado começou, enfim, a investigar as causas do genocídio.

A CPI mal começou, mas o Planalto já coleciona derrotas, boa parte delas por conta do amadorismo dos bolsonaristas. A turma que venceu a eleição negando a política não está conseguindo articular uma estratégia para se defender na comissão. Primeiro, fizeram o diabo para que não se abrisse a comissão, sem sucesso. Depois, tentaram investigar prefeitos e governadores e entraram na justiça para impedir Renan Calheiros de assumir a relatoria, também sem sucesso.

O amadorismo é tão grande que Bolsonaro chegou a ligar para o governador de Alagoas, que é filho de Renan, numa tentativa de se aproximar do relator, enquanto Zambelli recorria da decisão da justiça de permitir a escolha de Renan na relatoria. O resultado disso era óbvio: o senador sentou na mesa da relatoria, esculachou o negacionismo e pediu punição para os culpados.

Nas primeiras sessões da CPI, os bolsonaristas tumultuaram e buscaram atravancar os trabalhos. Tentaram convocar governadores, o que foge do escopo da comissão, e questionaram até mesmo a validade dos depoimentos virtuais, alegando empecilhos técnicos que não existem no século 21. Tentaram também convocar o ministro do STF Marco Aurélio Mello, alimentando a narrativa mentirosa de que o Supremo impediu Bolsonaro de atuar no combate à pandemia.

A CPI tem 90 dias para ser concluída, e o objetivo da turma é atrasar ao máximo as investigações. Quanto mais atrasos, mais difícil fica para concluir um bom relatório final. Com minoria na comissão e sem o apoio do presidente e do relator, essa foi a única maneira que o bolsonarismo encontrou para minimizar os prejuízos políticos. É uma maneira desesperada de time que está perdendo o jogo e tenta vencer pela catimba. Do outro lado do campo, estão Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues, dois macacos velhos da política que até agora estão se saindo bem das armadilhas armadas pelo bolsonarismo.


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Além de chefiar a CPI, Randolfe e Renan ainda precisam sair das armadilhas armadas pelo bolsonarismo.

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Antes da abertura dos trabalhos da comissão, o jornalista Rubens Valente revelou que a Casa Civil distribuiu para 13 ministérios uma lista enumerando 23 acusações frequentes sobre o desempenho do governo no enfrentamento à covid-19. O objetivo era que cada ministério produzisse respostas às prováveis acusações que serão feitas na CPI. Além de ser um roteiro perfeito para os seus acusadores seguirem na comissão, fica claro que o governo sabe exatamente quais crimes cometeu. O vazamento do documento representa o lado cômico do amadorismo bolsonarista na articulação da defesa das acusações de genocídio.

Depois descobriu-se que os requerimentos apresentados por senadores bolsonaristas na CPI foram fabricados dentro do Planalto. Entre os pedidos havia a convocação de cinco especialistas associados à defesa do tratamento precoce ou a críticas ao lockdown. Os metadados dos arquivos desses pedidos indicaram que eles foram redigidos por alguém da Secretaria de Assuntos Parlamentares da Presidência da República, mais especificamente pela namorada de Frederico Wassef, o advogado da família Bolsonaro que ofereceu sua casa para esconder da polícia o miliciano Fabrício Queiroz — aquele que é amigo íntimo do presidente há mais de 30 anos. A coisa é tão escancarada que Bolsonaro não viu problema em dar um cargo no Planalto para a namorada de um advogado que prestou serviços nada republicanos para um miliciano ligado ao presidente, aquele mesmo que comandava a roubalheira no gabinete do Flávio Bolsonaro.

É difícil de entender se tudo isso é fruto exclusivamente do amadorismo ou da plena confiança na impunidade. Será que a “casa de vidro” está sendo aparelhada por milicianos ligados ao presidente? Será que em breve descobriremos também que os parentes de Adriano da Nóbrega — amigo do presidente e chefe da milícia que matou Marielle —  estão mamando nas tetas de algum órgão ligado ao Planalto?

A próxima semana de CPI promete. Na terça-feira, serão ouvidos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, dois ex-ministros da Saúde cuspidos pelo governo por teimarem em seguir as recomendações da ciência. Eles certamente têm muitas novidades para nos contar, principalmente Mandetta, que nutre certo ódio pelo governo e tem pretensões eleitorais. Na quarta-feira, será a vez de Pazuello, o militar alinhado ao bolsonarismo que comandou do negacionismo genocida. O ex-ministro provavelmente não falará nada que incrimine o governo, mas o seu amadorismo e a sua, digamos assim, pouca inteligência têm potencial para deixar escapar coisas que o Planalto quer esconder. Na quinta-feira serão ouvidos o atual ministro da Saúde Marcelo Queiroga e o presidente da Anvisa. Eles terão que explicar por que o governo foi omisso na aquisição de vacinas, por que não comprou as 70 milhões de vacinas oferecidas pela Pfizer e se Bolsonaro interferiu na Anvisa para atravancar as negociações com o Instituto Butantan, responsável pela Coronavac. São situações impossíveis de explicar sem responsabilizar Jair Bolsonaro. Essa semana será de trevas para o bolsonarismo.

Na falta de uma articulação eficiente para se defender na CPI, o bolsonarismo aposta suas fichas nas táticas de milícia. O Gabinete do Ódio tem disseminado ataques e dossiês apócrifos contra testemunhas e senadores oposicionistas da CPI por meio de suas milícias digitais. O senador Otto Alencar, do PSD, encaminhou à Polícia Legislativa uma série de mensagens contendo ataques e ameaças, algumas delas mencionaram o endereço em que ele mora em Brasília. O milicianismo na defesa do bolsonarismo é flagrante e reproduz as táticas que os amigos do presidente, como Adriano de Nóbrega e Fabrício Queiroz, implantaram no bairro Rio das Pedras no Rio de Janeiro.

As ações em defesa de Jair Bolsonaro na CPI são um misto de amadorismo, milicianismo e desespero. Os pitbulls estão latindo alto, mas são latidos de quem já percebeu que não será mais possível ocultar as provas do genocídio. Os amadores da tropa de choque bolsonarista terão que enfrentar os políticos profissionais que comandam a CPI e que estão em maioria. O relatório final dessa CPI pode até não dar em nada efetivo contra Bolsonaro, mas será um golpe duríssimo nas suas pretensões de reeleição.

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